segunda-feira, 10 de março de 2008

O que houve conosco ?

Em 2002 uma editora de Florianópolis publicou um livro cujo título era “Pêssego Gay – Architectusaurus Erectus”, escrito por Nestor Pinto Madeira e o autor deste blog.

De lá para cá tenho escutado e lido repetidamente uma pergunta: “Com tanto assunto, o que leva um arquiteto a escrever sobre corrupção?”

Invariavelmente respondo: “Ética: pessoal e profissional”.

Tenho plena consciência dos riscos envolvidos em abordar um tema tão difícil.

A construção civil em geral e a arquitetura em particular, minhas áreas de atuação, sofreram um processo de corrompimento que a minha geração, aqueles nascidos nos anos 50 e 60, jamais poderiam supor que viesse a ocorrer.

É preciso deixar claro que os meus contemporâneos ficam especialmente escandalizados com o país de hoje pois, ao contrário daqueles que nasceram após 1980, conhecemos:

- Um Brasil com ótimas estradas e uma razoável rede ferroviária.

- Um Brasil no qual, sem distinção de classe, utilizávamos a rede de saúde pública que era muito boa.

- Um Brasil no qual gente corrupta desaparecia de circulação pois tornava-se “mal falada”.

- Um Brasil no qual o governo funcionava razoavelmente e as instituições impunham respeito.

- Um Brasil no qual as escolas públicas eram referência de qualidade.

- Um Brasil no qual o termo “político” não era sinônimo de “escória”.

- Um Brasil no qual futuro era associado a sinais de exclamação, não interrogação.

Provavelmente você deve estar pensando: “Pronto, é outro daqueles saudosistas chatos, um ex-garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, logo vai estar publicando fotos antigas da cidade e comentando sobre a coleção de figurinhas dos jogadores da seleção de 1970."

Nada disto, dispenso as fotos e as figurinha. Por outro lado, fico com as músicas.

Faço parte de um grupo no qual os membros supunham ser revolucionários. Ajudamos a quebrar alguns tabus:

- Desmistificamos a virgindade e decretamos o amor livre.

- Apoiamos a revolução do ensino e o abandono dos velhos métodos didáticos.

- Execramos os militares e fomos às ruas exigir eleições diretas.

- Ridicularizamos Pelé quando disse que não sabíamos votar.

- Elegemos dois fanfarrões: um do topo e outro da base da pirâmide social.

- Nos encantamos com a nova televisão e nos tornamos escravos dela.

- Trocamos os jornalões pelos tablóides.

- Fumamos e cheiramos todas.

- Criamos slogans e passamos a acreditar neles.

- Abolimos as velhas regras.

Deu no que deu.

Esquecemos um princípio fundamental: quem quebra velhas regras tem por obrigação estabelecer as novas.

No entanto, o pior de todos nossos defeitos veio à tona nos últimos anos : aprendemos a conviver com a corrupção, a tolera-la, fazer de conta que não vemos.

A minha geração, que um dia imaginou ser revolucionária, revelou-se um grupo lamentável de gente covarde, protagonistas de algumas páginas em branco nos livros de história do futuro.

Ainda não entendemos bem a extensão do mal que nossa apatia e falta de tutano causou a este país.

O que houve conosco?

Como deixamos as coisas chegar a este ponto?

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